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terça-feira, fevereiro 16, 2010

Placa de circuito impresso pelo processo fotográfico

Todos que têm a Eletrônica como hobby precisarão criar suas próprias placas de circuito impresso (PCIs).

Quando a gente começa a brincar com a Eletrônica, normalmente os circuitos são muito simples e as plaquinhas também. Para fazê-las, dá para desenharmos os circuitos usando as canetas próprias para isso. Conforme avançamos com os conhecimentos, os circuitos tendem a ficar mais e mais complexos. Aí, já não será mais possível continuar a desenhar as placas manualmente.

Como faremos então? Há vários métodos para criarmos as PCIs: desenho manual, decalques, processo térmico, serigrafia, processo fotográfico, entre outros.

O processo fotográfico que descrevo neste artigo eu aprendi neste fórum: Faça placas de circuito impresso com qualidade profissional.

Assim, antes de continuar com o tema deste artigo, gostaria de agradecer a todos que participaram deste fórum por terem compartilhado suas experiências e conhecimentos, fazendo com que esse processo deixasse de ser uma arte oculta.

Um agradecimento especial vai para o Ferocactus e para o Akira386. Eu não os conheço, mas o empenho deles em divulgar esse método foi uma iniciativa fantástica. Obrigado.

Este processo que vou descrever permite a criação de placas com trilhas extremamente finas com alta qualidade, sendo que o resultado final dependerá muito da prática. Quanto mais prática, melhor os resultados (como quase tudo na vida).

Outra coisa que o amigo leitor deve ter em mente: o processo que descrevo foi aquele com o qual eu melhor me adaptei. Existem variações sobre como fazer as placas por esse processo. Aconselho a todos os interessados neste método que leiam a discussão no fórum, desde o início, para entender os erros e acertos do pessoal, bem como para aprender as diversas variações que existem.

Vou assumir que de algum modo tu tens o layout da placa de circuito impresso (baixaste da internet um pdf ou uma imagem jpg ou tens os arquivos de algum programa específico para criar placas, como o KiCAD ou o Eagle, por exemplo.

Tu deves adquirir uma emulsão para confecção de matrizes resistentes a tintas solúveis em água e seu respectivo sensibilizante. Geralmente essa emulsão é de cor verde, independente de quem é o fabricante.

Existem várias marcas no mercado. Eu utilizo a emulsão e o sensibilizante da marca Tec-Screen, conforme mostrado na figura 1 abaixo.
Figura 1 - Emulsão e sensibilizante.

As ferramentas que tu vais precisar são:
  • uma seringa de 1ml, dessas de insulina. Comprar na farmácia.

  • uma seringa de 10 ou 20ml. Comprar na farmácia.

  • um rolo de espuma, que pode ser adquirido em qualquer loja de tintas.

  • um pincel. Pode ser obtido em papelarias.

  • um esponja scotch-brite. Comprado na farmácia ou tirado da cozinha de casa ;)

  • uma vasilha plástica em que a placa caiba. Eu reaproveitei uma embalagem dessas de paçoquinha.
     
  • uma escova de dentes macia. Podes comprar uma nova ou reaproveitar uma usada.

  • sapólium radium (outro ataque a cozinha)
     
  • um secador de cabelos (pegue emprestado da patroa, para não gastares dinheiro com isso ;)

  • ventilador (com certeza tens um em casa). Opcional.

  • uma centrífuga (vou falar dela mais adiante). Opcional.
  • uma impressora (jato de tinta ou a laser).

A figura 2 abaixo ilustra quase todos os materiais citados.

Figura 2 - Alguns dos materiais necessários.

Preparação da imagem.
Deves usar algum programa de desenho decente (o Gimp, por exemplo), e obter uma cópia invertida e em negativo do layout para o qual queres gerar a placa.

A figura 3 mostra um layout normal e a figura 4 mostra o mesmo layout em negrito e espelhado, para que tu tenhas uma ideia do que estou falando.

Figura 3 - Exemplo de layout.

Figura 4 - Layout em negativo e invertido.

Obtenção do fotolito.
Imprima a imagem invertida e em negativo do circuito em papel para transparências. Faça 3 cópias idênticas, recorte-as e monte uma sobre a outra, de modo a aumentar a opacidade da mesma.

Por quê três cópias? Porque geralmente em uma única impressão a parte em negro não fica tão opaca quanto deveria.

A figura 5 mostra como fica a opacidade da impressão. Ignore a mancha branca na imagem do meio. É apenas o reflexo da luz.

Figura 5 - Opacidade de Uma única impressão em papel para transparências próprio para impressora jato de tinta.

Pode-se notar na imagem da figura 5 que o preto não é totalmente preto. A figura 6 mostra o fotolito montado com 3 imagens sobrepostas.

Figura 6 - Fotolito montado com 3 imagens sobrepostas.

Veja na figura 6 como a sobreposição das imagens torna o desenho muito mais opção.

Para imprimir eu uso a impressora jato de tinta Epson Stylus Photo R270, configurada para imprimir em papel fotográfico com qualidade máxima.

O papel utilizado é o papel para transparências com tarja para impressoras jato de tinta, formato A4 de 100 micra, da Sistem (Sistem é escrito com i mesmo).

Notas:
  • a impressão deve ser feita no lado fosco do papel.
  • após a impressão, deixe a impressão secar naturalmente por, no mínimo, uns 15 minutos. Não force a secagem de modo algum. Nem com secador e nem com ventilador.

Preparação da Emulsão
Em um ambiente escuro, misture 9 partes de emulsão para 1 parte de sensibilizante. Com uma espátula, um palito ou qualquer outra coisa que tenhas em mãos, mexa a mistura devagar por uns 5 minutos. Depois deixe-a descansar, no escuro, por pelo menos uns 30 minutos. Isso é necessário para que não fiquem bolhas na mistura, pois elas atrapalham o processo.

Eu uso a seringa maior (de 10 ml) para puxar exatamente 9ml de emulsão de dentro do pote e a seringa de 1ml para pegar exatamente 1ml de sensibilizante.

Misturo ambos em um pote vazio de filme fotográfico, pois nele cabe perfeitamente essa quantidade além dele isolar muito bem a luz dos produtos. A figura 7 mostra o recipiente onde as misturas ficam.

Figura 7 - Recipiente de filme fotográfico, usado para guardar a mistura emulsão + sensibilizante.

Notas:
  • O sensibilizante (dicromato de amônio) é altamente tóxico, assim, use luvas e evite o contato direto com a pele. Estás avisado. Depois não vá chorar.
  • Conserve tanto o sensibilizante quanto a emulsão longe da luz.
  • Só misture os produtos quanto fores usá-los, e na quantidade necessária,  pois a partir do momento em que a mistura é feita, o processo de endurecimento se inicia.
  • A mistura obtida, se bem acondicionada e longe da luz (como por exemplo, dentro do tubo de filme fotográfico), dura vários dias.
  • Lave as seringas muito bem logo após o uso, retirando qualquer resto de emulsão ou sensibilizante, pois do contrário elas não poderão ser usadas novamente. As seringas travam de tal modo que não é possível puxar ou empurras para fora nenhum fluído. Guarde as seringas desmontadas.
    Minha experiência mostra que, mesmo bem lavadas, se forem guardadas com o êmbolo dentro da seringa, o atrito aumenta muito, dificultando seu uso.
Limpeza da placa
Para limpar a placa, use a esponja scotch-brite (lado mais abrasivo) e detergente. Para ter certeza que a limpeza está adequada, faça o seguinte: molhe a placa e vire-a de lado. Caso se forme uma película de água por toda a placa, ela estará bem limpa. Do contrário, continue com a limpeza.

Após a placa estar bem limpa, seque-a com papel higiênico e/ou secador de cabelos. Não toque mais no cobre!

Aplicação da Emulsão na placa
Em um ambiente o mais escuro possível, com um pincel ou espátula, aplique a mistura emulsão + sensibilizante preparada anteriormente por toda a placa, deixando a camada aplicada o mais uniforme possível.

Tome cuidado para que a camada aplicada não fique nem muito fina nem muito grossa. Tente evitar a formação de bolhas.

Com o pincel, eu aplico uma camada generosa da mistura sobre a placa e depois a coloco sobre a centrífuga, para que ela fique mais homogênea.

A minha centrífuga nada mais é que uma ventoinha tirada de uma sucata de  fonte de PC. Eu coloque uma fita dupla face sobre a ventoinha e depois prendo a placa sobre a fita.

Se tu fores usar uma centrífuga, lembre-se de proteger as laterais, pois ela vai espalhar emulsão para todos os lados e aí a patroa (ou a mamãe, dependendo do caso), não vais gostar nem um pouco ;).

As figuras 8 e 9 mostram a minha centrífuga.
Figura 8 - centrífuga desmontada.

Figura 9 - centrífuga montada com a placa e a proteção anti-sujeira.

Repare nas imagens,  mancha verde rodeando toda a parede do anteparo. Se não fosse pela proteção, eu teria sujado tudo em volta quando tivesse usado a centrífuga e provavelmente a patroa teria me matado ;)

Nota: Não deves deixar a rotação da centrífuga muito alta nem deixá-la ligada por muito tempo, porque senão a camada de tinta ficará muito fina.

Se tiveres uma fonte de tensão variável, podes começar alimentando o circuito com uma tensão baixa, digamos uns 3 volts, que tu irás aumentando gradualmente, para que a velocidade da ventoinha aumente também de modo gradual.

Eu não tenho essa fonte regulável, então uso uma fonte de 6V para alimentar a ventoinha (de 12V), fazendo com que ela gire mais de vagar que o normal.

Deixando a emulsão secar na placa
Ao fim do processo de aplicação de emulsão + sensibilizante, deves deixar a placa secar por algum tempo em um local escuro!

Eu deixo a placa secar por uns 10 ou 15 minutos ao natural, depois eu ligo o ventilador no mínimo (não muito próximo à placa), para apressar o processo de secagem. De 30 a 60 minutos a placa estará totalmente seca.

Quando a placa estiver completamente seca, verás que de verde escuro, com aparência de úmida, a tinta passará a um verde bem claro e sem a aparência de estar úmida.

Nota:
  • Se a placa não estiver totalmente seca, o fotolito estragará quando formos usá-lo ou na hora de removermos a tinta ela sairá nas partes que não estiverem secas.
  • Se deixarmos a emulsão muito tempo sobre a placa, a sua remoção será muito difícil e provavelmente tu estragarás o serviço ao tentar remover a emulsão.
Sensibilização da Placa
Com a placa seca, ainda em ambiente escuro, o seguinte:
  • coloque uma placa de vidro sobre a mesa.
  • centralize a PCI, com a emulsão virada para cima, sobre a placa de vidro.
  • coloque o fotolito sobre a placa. O lado fosco, ou seja, aquele onde a tinta se depositou deve ficar em contato com a emulsão!
  • coloque a outra placa de vidro sobre o conjunto  PCI + fotolito, formando um sanduíche.

  • A seguir, coloque o abajur com a lâmpada sobre a placa de vidro e acenda a luz.
O tempo de exposição varia com o tipo de luz utilizada e com a distância da lâmpada para a PCI. Eu uso uma lâmpada fluorescente de 34W, ligada por 15 minutos a uma distância de 10cm da PCI.

Há pessoas que usam lâmpadas halogenas, de luz negra, ultra-violeta com as mais diversas potências e até a exposição direta sob o sol.

Tu terás que fazer teus testes para determinar por quanto tempo deverás expor a placa com emulsão baseado no método que fores usar.

A figura 10 mostra o sanduíche formado pelas placas de vidro (como as fatias do pão) e pela PCI + fotolito (como o recheio), expostos à luz da lâmpada fluorescente.
Figura 10 - sensibilização da placa.

Revelação

Nada mais é do que a remoção da emulsão das partes que deverão ser removidas pelo percloreto de ferro durante a corrosão. Esta etapa também deve ser feita em ambiente escuro.

Essa etapa é chamada de revelação porque a imagem do layout vai aparecendo igual ao que ocorre quando se revela um filme fotográfico.

Faça o seguinte:
  1. remova o fotolito de cima da PCI. Se neste passo a camada de emulsão se soltar, limpe a placa recomece o processo do zero. Prováveis causa do problema:
    • a placa não secou o suficiente;
    • tu não misturaste a emulsão + sensibilizante na proporção adequada;
    • puseste o lado brilhante do fotolito em contato com a emulsão ao invés do lado fosco;
    • não comprimiste o fotolito sobre a emulsão de modo adequado;
    • a emulsão ou sensibilizante são muito velhos. 
     
  2. insira a placa em uma vasilha de plástico com água morna (quente o suficiente que consigas mergulhar a mão nela sem se queimar) e deixe-a submersa por 90 segundos.
  3. mantendo a placa submersa, passe o rolo, sempre úmido, sobre a placa, bem delicadamente. A emulsão deve começar a se soltar. Se todas as etapas anteriores tiverem sido feitas adequadamente, a emulsão vai se soltar facilmente, ficando apenas as trilhas e pads que compõe o layout.

    Após 5 minutos passando o rolo sobre a placa, somente o desenho do layout deverá estar com a emulsão. No restante da placa, o cobre deverá ser visto claramente.

    Se as trilhas começarem a se soltar, é sinal que alguma coisa deu errado em alguma etapa anterior. Vais ter que limpar a placa e recomeçar do zero. As causas são as mesmas da etapa 1.

    Assim que toda a emulsão tiver sido removida, tire a placa da vasilha com água e use um secador de cabelos para secá-la bem. Eu deixo a placa morna com o secador.
  4. Se o cobre não estiver brilhante é sinal que uma película de emulsão se formou sobre a placa (popularmente conhecido como véu). Para retirar o véu, primeiramente a placa deve estar muito bem seca (secagem feita na etapa anterior).

    Despeje uma quantidade generosa de sapólium radium sobre a placa e depois uma pequena quantidade de água, o suficiente para formar uma pasta. Com a escova de dentes esfregue bem a placa para remover o véu (mas não aplique força exagerada para não soltar as trilhas).

    Após 1 minuto esfregando a placa, lave-a delicadamente com água e seque-a bem com o secador. Verifique se ainda há véu em alguma parte da placa. Se houver, ponha o sapólium sobre as partes que precisam ser limpas e repita a operação.

    Lembre-se de parar a cada um  minuto e secar bem a placa para evitar que as trilhas se soltem. Normalmente duas ou três vezes são o suficiente para tirar todo o véu.
A figura 11 mostra duas placas. A de cima foi danificada durante a lavagem. O problema foi causado por uma camada muito grossa de emulsão, que não secou adequadamente.

Repare no aspecto de sujeira da placa de baixo. Esse é o famoso véu.
Figura 11 - Duas placas após a revelação.

Preparando a placa para a corrosão.

A emulsão não vai aguentar muito tempo sob a água. Daí a necessidade dessa etapa.

Com a placa totalmente limpa e seca, vamos embeber um cotonete com o sensibilizante e aplicar sobre a emulsão que reveste as trilhas e pads. Após isso, devemos reexpor a placa à luz até que a emulsão fique preta.

Eu gosto de deixar a placa torrando sob o sol forte.

A figura 12 ilustra uma placa com as trilhas pretas após ter sido exposta ao sol com a nova camada de sensibilizante. Note que eu passei sensibilizante até em áreas onde não haviam trilhas. Isso está errado (além de ser um desperdício de material). Mas eu estava com pressa e fiz essa caca.

Figura 12 -placa com emulsão negra após exposição ao sol com segunda aplicação de sensibilizante.

Corrosão
Eu faço a corrosão com percloreto de ferro. Não use percloreto muito velho, pois senão pode acontecer uma das duas coisas (ou ambas):
  • a emulsão começará a se soltar e as trilhas serão corroídas.
  • a emulsão amolecerá e permitirá que o percloreto se infiltre e corroa as trilhas.

A figura 13 ilustra uma placa já corroída.

Figura 13 - placa já corroída e limpa.

O processo parece mais trabalhoso do que é na realidade. Por isso, não se impressione se parece muita coisa para ser feita. Aprenda a fazer placas com esse processo que ele te permitirá fazer placas bem complexas.

Escolha uma placa fácil de ser feita para aprender esse método. Ou seja, placas com poucas trilhas e sem trilhas muito finas.

Excepcionalmente, para este artigo, eu NÃO vou responder a nenhuma pergunta sobre o método. Repetindo: eu NÃO vou tirar dúvida nenhuma que seja postada aqui. Vou solenemente ignorar qualquer pergunta sobre o método.

Por quê? Por dois motivos:
  1. Tu deverias ler todo o fórum, pois todas as dúvidas que tiveres provavelmente já foram respondidas lá.
  2. o fórum é o melhor lugar para postares todas as tuas dúvidas. Assim o conhecimento ficará concentrado em um lugar apenas. Isso é bom para todos.
E quando fores postar alguma pergunta no fórum, por favor, não dirija a pergunta para mim. Qualquer um dos usuários tem condições de te ajudar (aliás, quase todos tem muito mais experiência que eu nesse assunto).

Espero que tenhas gostado e que te seja útil.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Simulador de circuitos eletrônicos

Hoje recebi um e-mal da lista de discussões que assino falando sobre um simulador de circuitos lógicos em tempo real. Chama-se Atanua (segundo a documentação que eu li, é o nome de uma deusa da mitologia polinésia: a Deusa do Amanhecer)

Neste link há um demo do produto.


Há uma versão gratuita para uso pessoal e não comercial, que pode ser obtida aqui.

O mais legal de tudo: Há uma versão para Linux (compilada para Ubuntu 8.04), para Mac e Windows.

Eu baixei a minha versão (para Linux, lógico) e vou começar a brincar com esse programa para ver se ele é bom quanto parece no demo.

Não perca tempo. Baixe e instale o simulador e comece a brincar / aprender.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Gravador de PICs

Bom, estou de férias até o dia 04 de janeiro e resolvi me presentear com um circuito eletrônico.

Eu gosto muito de montagens de circuitos analógicos, com amplificadores operacionais, muitos transistores, capacitores, indutores, LEDs e outros componentes discretos.

Geralmente tudo que monto é em proto-board. Assim, após o circuito estar funcionando eu o desmonto para reutilizar as peças em outras montagens.

Mas dessa vez resolvi montar algo definitivo... uma ferramenta: um gravador de PICs.

Como a maioria dos projetos que estou planejando são com os microcontroladores PIC12F675-I/P  e o 16F628A, a primeira versão do programador consegue programar os PICs de 8 e 18 pinos.

A foto abaixo ilustra o resultado final.



Há um espaço na placa para que eu habilite a gravação dos PICs de 28 e 40 pinos. Ela já está preparada para isso. Só não fiz isso na primeira versão porque faltaram componentes e eu estava sem disposição para enfrentar o comércio nesta época de compras natalinas.

Após o aparelho pronto, precisava ter certeza que ele estava funcionando. Daí, eu bolei um circuito bem simples, com 1 LED e utilizei fios no lugar chaves (que estão em falta no meu estoque).

A partir de uma combinação de sinais em nível alto e baixo em determinados pinos, o LED acenderia, apagaria ou ficaria piscando.

Utilizei o Piklab versão 0.15.2 no Ubuntu 8.04 para escrever alguns programas de teste bem simples (em assembly).

Após cada programação do PIC, eu o inseria no proto-board e usava o próprio gravador como fonte de alimentação.

Uma coisa que deve ser observada: no Ubuntu que utilizei não havia o dispositivo para a porta paralela.

Assim tive que criá-lo com o comando

sudo mknod /dev/parport c 99 0

Depois me adicionei ao grupo que tinha direito de leitura e escrita a este dispositivo (no meu caso, o grupo scanner).


A foto abaixo dá a ideia da simplicidade do circuito de teste.



Tudo funcionou muito bem. Agora preciso comprar alguns componentes para começar a brincar com meu gravador.

Bom Natal a todos.

sexta-feira, novembro 27, 2009

quarta-feira, novembro 25, 2009

uControl número 7

Já está disponível o número 7 da revista uControl, editado pelo pessoal do site MicroPIC. Ela está disponível gratuitamente sob o formato pdf. A qualidade do material publicado é excelente. Recomendo a todos.

Ah, vale lembrar que a revista está em espanhol.

Tu podes obtê-la aqui.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Newton C. Braga lança seu site

Ontem recebi um e-mail do Newton C. Braga, informando que o seu site foi oficialmente lançado.

Isso é uma excelente notícia. Todos que gostam de eletrônica aqui no Brasil com 100% de certeza conhecem o excelente trabalho que ele vem desenvolvendo ao longo dos anos.

Então fica a dica de ouro: visite o site que tu só tens a ganhar.

Ah, ele também tem twitter.

terça-feira, novembro 03, 2009

Modelos para SPICE

Todos os simuladores do tipo SPICE vêm como uma quantidade razoável de modelos que é mais que suficiente para quem está começando.

E conforme tuas habilidades aumentam, a tua necessidade por modelos mais específicos também aumentará.

A lista de endereços a seguir contém vários modelos para SPICE disponíveis de graça. Espero que ela seja útil para ti.

De tempos em tempos eu vou atualizá-la.

sábado, outubro 24, 2009

Conhecendo a interface do LTSpice

Antes de começar a simular os circuitos com o LTSpice, é necessário que estejamos familiarizados com a sua interface.

Todos os manuais e tutoriais que encontrei ou estão em inglês ou em alemão. Muitos têm dificuldades com esses idiomas, então este artigo será como uma referência bem resumida dos comandos do LTSpice.

-E o que veremos aqui?

Agora nós vamos ver apenas o básico: como criar um novo diagrama, como inserir e remover componentes, bem como movê-los, rotacioná-los e editar suas propriedades, entre outras atividades do dia a dia.

Conforme formos avançando nos nossos estudos, a gente vai aprender mais e mais comandos.

Para simular os circuitos no SPICE original, tínhamos que escrever os arquivos contendo todas as definições dos componentes, o que se desejava medir e como os componentes estavam interligados.

A listagem 1 representa o circuito mostrado na figura 1.
* RC Integrator Frequency Characteristics
V1  1  0  DC  0V  AC  1V
R1  1  2  1k
C1  0  2  1u
.AC DEC 20 1 10K
.PLOT AC db(v(2)) ph(v(2))
.PRINT AC db(v(2)) ph(v(2))
.END
.
Listagem 1 - Lista de componentes (netlist) para SPICE

Figura 1 - Exemplo de circuito a ser simulado

Como podes imaginar, quanto maior for o circuito, mais complicada fica a escrita da netlist. Felizmente o LTSpice possui um módulo de captura de diagramas esquemáticos.

- Hum?

Isso quer dizer que tu podes desenhar o circuito, conforme mostrado na figura 1 que o LTSpice irá gerar o netlist para ti. Fica muito mais fácil, não é?

O LTSpice também pode simular os circuitos dado apenas o netlist, ou seja, sem o diagrama esquemático. Isso é útil para rodar netlists gerados por qualquer outro programa que seja compatível com o SPICE.

Ok, agora vamos começar a entender como usar o LTSpice.

A figura 2 mostra o jeitão do LTSpice. Muitos botões da caixa de ferramentas só são habilitados quando há algum circuito sendo editado.

Figura 2 - Tela principal do LTSpice

- Como faço para criar um novo diagrama?

Clique em File->New Schematic para criar um novo esquema elétrico. Veja a figura 3.

Figura 3 - Como criar um novo diagrama elétrico

Aparecerá uma janela com fundo cinza e na barra de títulos, o nome padrão do documento recém criado é Draft1.asc, conforme mostrado na figura 4.

Figura 4 - Diagrama esquemático recém criado

Clique em File->Save As e salve o arquivo em algum diretório da tua preferência e com um nome significativo para ti.

Nota: Se tu simplesmente salvares o arquivo (com CTRL-S ou via o menu File->Save), o teu diagrama será salvo com o nome Draft1.asc.

- E como insiro um componente no diagrama?

Para inserir um componente, tu podes teclar F2 ou Clicar em Edit->Component, como mostra a figura 4.

Figura 4 - Inserção de componente por meio do menu

Todos os componentes podem ser acessados desse modo. Alguns componentes são tão utilizados, que eles aparecem dentro do próprio menu Edit. Esses componentes também podem ser inseridos digitando-se sua tecla de atalho. Isso aumenta muito a velocidade de inserção.

Na figura 5 temos a figura com os principais componentes e comandos e seus atalhos.

Figura 5 - Principais comandos e componentes com seus atalhos de teclado

Se adicionares um componente apertando a tecla F2 ou clicando em Edit->Component, aparecerá uma caixa de diálogo de seleção de componente, igual à mostrado na figura 6.

Figura 6 - Caixa de diálogo de seleção de componente.

Para efeito de exemplificação, vamos selecionar a fonte de tensão independente. Role a barra de rolagem horizontal até aparecer o componente voltage.

Clique sobre o texto voltage.Note que conforme selecionamos um componente o seu símbolo é exibido (figura 7).

Figura 7 - Componente selecionado

Pressione o botão OK.

Ao fazer isso, esta caixa de diálogo fechará e tu retornarás para a tela principal. Junto ao cursor do mouse aparecerá o contorno do componente selecionado, conforme pode ser visto na figura 8.

Figura 8 - Componente prestes a ser inserido

Clique e alguma região em cinza da tela para posicionar o componente. A figura 9 mostra a fonte no diagrama elétrico.

Figura 9 - Fonte de tensão inserida no diagrama

Para continuar inserindo o mesmo componente, continue clicando nas posições em que tu queres que eles fiquem.

Se não quiseres mais continuar a inserir os componentes, pressione a tecla ESC.

Se o componente aparecer muito grande ou muito pequeno, só precisas corrigir o zoom da tela. Para isso, podes usar as lupas para ampliar / reduzir o zoom, pressionar as teclas CTRL-Z ou CTRL-B ou mantendo pressionada a tecla CTRL, atuar na tecla roda do mouse.

Vamos inserir agora um resistor. Pressione a tecla R. Tu verás que imediatamente aparecerá o contorno do símbolo do resistor no lugar do cursor do mouse. Posicione-o em algum lugar da tela, conforme explicado acima.

Uma coisa para a qual deve-se ficar atento é que para rotacionar um componente ou espelhá-lo, devemos primeiro selecioná-lo como se fossemos movê-lo.

Selecione o comando Move (mover) ou Drag (arrastar) com pressionado a tecla F7 ou F8, respectivamente. O cursor se tornará uma mãozinha, indicando que o comando está ativo. A seguir clique sobre o componente que tu desejas rotacionar ou espelhar.

Feito isso, execute o comando de rotação ou espelhamento pressionado as teclas CTRL+R ou CTRL-E, respectivamente.

Continue repetindo a sequência de teclas acima até que o componente tenha girado o quanto tu desejas. A seguir posicione-o no lugar desejado e clique com o botão esquerdo do mouse.

As conexões elétricas entre os componentes deve ser feita com o apoio do comando Wire, tanto por meio do menu Edit->Wire quanto por sua tecla de atalho F3.

Caso seja necessário apagar um componente ou uma conexão elétrica, use o comando Delete, acessível pelo menu Edite->Delete e por sua tecla de atalho F5.

Pratique um pouco a criação de circuitos. Insira componentes, remova-os, rotacione-os, mude-os de posição... enfim, familiarize-se com a interface fornecida pelo aplicativo.

Esse início foi meio chato porque resolvi assumir que tu, caro leitor, nunca havias usado o LTSpice. Daqui por diante não repetirei mais as instruções sobre como criar um novo diagrama esquemático, nem como inserir componentes com tantos detalhes (a não ser que tenha algo novo que mereça esse cuidado).

Se tu quiseres aprender um pouco mais sobre simulação com SPICE, podes ler estes livros em português ou estes (em inglês).

domingo, outubro 18, 2009

Apimentando seus projetos

Sou um hobbista das antigas. Eu me divirto muito montando meus projetos e por isso nunca fui um grande fã das simulações de circuitos. Montar pra valer é muito mais divertido do que apenas simular.

Infelizmente, como já escrevi anteriormente aqui, a Eletrônica é muito mais cara que a programação. Para ter um bom laboratório tu precisas, pelo menos, de um bom osciloscópio, de duas fontes de tensão estabilizada de 0-30 VDC com limitação de corrente e capacidade de fornecer de 0 a 3A, de um gerador de sinais, um multímetro e de um monte de ferramentas e componentes.

O problema é que isso custa dinheiro. Mais do que estou disposto a gastar no momento. Então, para economizar algum dinheiro e ao mesmo tempo manter o estudo e o desenvolvimento dos meus circuitos, eu decidi usar o SPICE.

O SPICE, meu amigo, é uma ferramenta de simulação de circuitos que é muito útil durante o ciclo de desenvolvimento. O uso do SPICE vai me permitir corrigir meus projetos antes mesmo que eu tenha que usar um único resistor. Assim eu vou poder testar várias configurações e escolher a melhor ao mesmo tempo em que mantenho os custos baixos.

Há muitos programas que são capazes de simular os modelos do SPICE. Eu escolhi o LTSpice da Linear Technologies por várias razões: ele é confiável, há muitos usuários do LTSpice que podem me ajudar a resolver meus problemas, ele inclui uma ampla variedade de projetos pré-prontos que faz com que seja mais fácil aprender a usá-lo, há vários tutoriais sobre ele na internet, ele é rápido e de graça. E ainda tem mais. Apesar de ter sido escrito para Windows, ele roda perfeita mente bem no Linux (graças ao WINE). E isso é essencial para mim.

Eu vou escrever tudo que eu aprender durante o meu estudo sobre a simulação com o SPICE.

Nota: Infelizmente não encontrei nenhum livro em português sobre SPICE. Assim, se quiseres conhecer um pouco mais a fundo esse assunto, terás que adquirir livros em inglês. Podes comprá-los aqui no Brasil ou no exterior.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Eletrônica e programação são muito parecidas

A Eletrônica e a programação são dois hobbies que eu tenho. E como não podia deixar de ser, eu vejo muitas semelhanças nas duas. Especialmente no modo de fazer as coisas.

A montagem usando somente componentes discretos (resistores, capacitores, diodos, transistores, etc) faz o teu circuito ficar muito grande, dá muito trabalho para ser projetado adequadamente, custa muito caro e algumas vezes é inviável desenvolver somente com componentes discretos.

O circuito é muito suscetível a erros, a manutenção é mais complicada.

Isso é o equivalente da programação em assembly. Não é prático desenvolver um programa muito grande totalmente em assembly. Já pensaste um software de CRM, como o SAP, totalmente escrito em assembly? O Oracle? O Linux?

Na montagem que além dos componentes discretos use circuitos integrados com baixa escala de integração (ex. amplificadores operacionais e portas lógicas da família 74XX ou 4XXX) são mais fáceis de serem feitas, uma vez que temos uma "biblioteca básica" (um amplificador operacional 741, por exemplo, contém 20 transistores e 11 resistores e ocupa apenas 0.400 x 0.290 x inches).

Esse tipo de montagem, para mim, é equivalente a programar em C. Temos uma casquinha sobre o assembly, que facilita em muito o desenvolvimento e não nos afasta muito das "entranhas do bicho".

Quando partimos para montagens que usam circuitos integrados mais especializados, como os amplificadores de áudio, circuitos de sincronismo horizontal e vertical de televisores, entre outros, o tamanho das placas vai diminuindo, assim como a complexidade e o tempo de desenvolvimento. Faço uma analogia desta situação com o uso do Java.

Quanto mais especializados os circuitos integrados que utilizamos, mais nos aproximamos dos frameworks e linguagens de alto nível (Ruby on Rails, por exemplo).

Essa analogia não é perfeita, mas me faz pensar na coincidência: gosto mais de programar em C e em Assembly do que com linguagens de mais alto nível. Do mesmo modo, gosto mais de fazer montagens com os componentes discretos e com os CIs básicos (amplificadores operacionais e as portas lógicas) do que utilizar circuitos mais especializados.

Não sou xiita. Quando se faz necessário uso linguagens de alto nível na programação e uso CIs especializados (microcontroladores, por exemplo) na Eletrônica.

Diferente da programação, onde assembly normalmente significa código mais eficiente, na Eletrônica isso não é verdade.

O custo inicial para desenvolver profissionalmente programas de computador costuma ser muito menor do que o necessário para o desenvolvimento na eletrônica.

Outro ponto que a programação e a Eletrônica diferem é no reaproveitamento do que foi criado. Uma biblioteca uma vez feita criada está disponível sempre. Custo zero. Na Eletrônica, cada novo projeto vem com um custo mínimo de aquisição dos componentes (que muitas vezes não é tão mínimo assim).

Eu resumi tudo em uma tabela.



EletrônicaSoftware
baixo nível
componentes discretos
Linguagem assembly
nível intermediário
componentes discretos e CIs de baixa escala de integração
Linguagem C
alto nível
CIs especializados, como circuitos de áudio e de sincronismo vertical e horizontal.Java / C#
nível muito alto
CIs muito especializados
Ruby on Rails
custo inicial para desenvolver profissionalmente
Muito alto
Baixo a médio
redução de custos por reaproveitamento de bibliotecas
Não muito
Muito alto

Tu já havias pensado nessas coisas? Ou será que sou só eu?

Vou parar de divagar por enquanto. Quando achar novas semelhanças, escreverei de novo.

terça-feira, setembro 01, 2009

26 anos de amor

Neste mês de setembro faz 26 anos que eu me apaixonei perdidamente por ela. Quando a vi pela primeira vez quase morri. Linda, sexy, sedutora, envolvente e misteriosa.

Naquela época, 1983, um colega meu me mostrou a revista Bê-A-Bá da Eletrônica, do professor Bêda Marques. Junto com a revista ele trouxe uma montagem feita em barra de conectores sindal.

Tratava-se de um flip-flop transistorizado que acendia e apagava dois LEDs alternadamente. Quando eu vi aquilo, que parecia mágica pra mim, decidi na hora: quero saber como isso funciona! Quero saber criar as minhas próprias invenções! Foi amor à primeira vista.

Desde então, nunca mais deixei de gostar de Eletrônica. Comprava todas as revistas disponíveis sobre o assunto. E eram várias: Bê-A-Bá da Eletrônica, Divirta-se com a Eletrônica, Eletrônica Digital, Saber Eletrônica, Electron Eletrônica, Elektor, RIUB (Revista do Instituto Universal Brasileiro), Antenna Eletrônica Popular... Alguém ainda lembra delas?

E eu fazia TODAS (e quando digo TODAS, eu quero dizer TODAS MESMO) as montagens que apareciam nas revistas. O dinheiro era curto, daí eu montava e desmontava os circuitos para reutilizar as peças em outro projeto. Os aparelhos velhos eram os maiores doadores de componentes. Eu aproveitava tudo que fosse possível. Cada centavo economizado era usado para uma revista nova, uma ferramenta que faltava na bancada...

E quando não funcionavam as coisas? A frustração era grande. No início eu não tinha nem conhecimento nem ferramentas para descobrir o que estava dando errado. E o pior: não tinha para quem perguntar.

Aí eu desmontava tudo e começava outra vez. Uma, duas, três vezes... Muitas vezes eram erros bobos... um componente invertido, um capacitor com valor errado... outras vezes o problema era no próprio circuito. O projetista errou alguma coisa ou algo foi publicado errado e aí o negócio não funcionaria mesmo. Mas como saber disso? Eu estava iniciando no mundo da Eletrônica.

E sabes qual era a pior revista neste sentido? A Saber Eletrônica. Eu já tinha até trauma. Pelo menos a metade dos projetos por ela apresentados não funcionavam. Para muitos, a correção dos problemas aparecia uns dois ou três exemplares depois da publicação do projeto. Eram as famosas erratas. Legal, era só seguir as correções que eles apresentavam que tudo funcionava. Mas para alguns projetos que não funcionaram não vieram correções e ficava por isso mesmo. A falha era minha? Não sei.

A Bê-A-Bá tinha uma linguagem muito fácil. Ela foi escrita com tanto esmero, com tanto cuidado e com uma didática tão boa que eu tinha a impressão que o professor Bêda Marques estava conversando comigo. Aliás, este era o enfoque da revista: o professor Bêda Marques usava a revista como a classe de aula que nós, leitores/alunos frequentávamos. Esta foi a melhor revista de Eletrônica já publicada.

Tenho todos os exemplares do número 1 ao 18. Aliás, devo um agradecimento especial à minha mãe, que na época não entendia muito o meu interesse por esse negócio mas mesmo assim pediu os exemplares atrasados (1 ao 7) para que eu completasse a coleção.

Com o passar dos anos, algumas revistas surgiram e outras desapareceram. Acompanhei a mudança no mercado editoral em que as revistas de Eletrônica foram sumindo e as de informática se proliferavam. Ditado pelo interesse dos leitores? Não sei.

A Editora Saber inovou com o lançamento das revistas Mecatrônica Atual e Mecatrônica Fácil. Alguns poucos anos depois, para minha tristeza, a Mecatrônica Fácil parou de ser publicada. As razões alegadas pela Editora Saber foram os custos elevados, o baixo número de leitores e a pirataria. Sinto até hoje. Depois da Bê-A-Bá da Eletrônica, a Mecatrônica Fácil foi a revista de que mais gostei.

Fiz vários cursos de manutenção e trabalhei como técnico. Paralelamente, mantinha-me ativo com meu hobby. Aprendi a fazer as placas de circuito impresso.

Primeiro pelo processo manual, depois com decalques. Daí aprendi a serigrafia, para fazer circuitos com qualidade profissional. Acordava e dormia com a Eletrônica.

Queria conquistá-la a qualquer custo, mas ela, caprichosa, sempre apresentava uma nova faceta, desafiava-me. Quando entrei na faculdade foi uma felicidade sem igual.

Sempre que possível eu estava no laboratório. Era o paraíso: tinha osciloscópio, gerador de sinais, frequencímetro, entre outras coisas. Rapaz, naquela época parecia impossível que eu um dia teria condições de adquirir um osciloscópio.

Eu tinha um carinho especial pelo laboratório. Tinha mais que isso. Tinha ciúmes dos equipamentos. Detestava quando alguém ia utilizá-los e ficava de olho pensando: - se esse filho da p... estragar algo, ele vai ter que pagar!.

E teve uma vez que um grupo de alunos que estava no final do curso foi montar um circuito e ligou errado os equipamentos.
- Está ligado errado. Vocês vão queimar o osciloscópio - eu disse, preocupado em manter tudo funcionando.
- Não está não. - responderam.
- Está sim. E se vocês queimarem essa merda, vocês vão pagar. - falei P da vida com a burrice deles.

Eles não deram ouvidos e queimaram o osciloscópio. Não tive dúvidas. Avisei ao professor Orlando, responsável pelo laboratório, o ocorrido e ele fez com que os idiotas pagassem o conserto. Quase morri de raiva naquele dia. Mas infelizmente eu não podia bloquear o acesso dos outros alunos ao laboratório.

Quando finalmente me formei em Engenharia Eletrônica eu estava desanimado. Vários professores diziam que trabalhar com Eletrônica no Brasil não daria futuro. O negócio era software.

Para completar a desilusão o professor Nélio fechou a sua empresa, que desenvolvia equipamentos para a área de Geologia e montou uma padaria! Uma padaria!

Dá pra acreditar? Ele, a sua esposa e as duas filhas, todos engenheiros, eram sócios de uma empresa de engenharia e mudaram para o ramo da panificação. Por quê? Por quê? Ele me disse o motivo. Era muito mais fácil ganhar dinheiro vendendo pão que vendendo equipamentos. Para não falar na carga tributária, custos de manutenção e operação... enfim, foi um balde de água fria. Fui trabalhar com Telecomunicações.

Estava tão desgostoso que vendi quase todos os meus livros de engenharia, cálculo e física. Meu amor, na época namorada e hoje esposa, ainda tentou me dissuadir:

- Tu vais vender teus livros? Deixa disso. Depois tu vais te arrepender.
- Não vou não.
- Então dê os livros pra mim.
- Não. Vou vendê-los.

Vendi os livros e depois me arrependi. Ela já me conhecia muito bem. Sabia que eu não consigo deixar de gostar da Eletrônica.

Depois comecei a trabalhar com desenvolvimento de software, que é o que faço até hoje.

Por um tempo parei totalmente com as montagens. Aí dava uma recaída e eu comprava uma revista, comprava umas peças e começava alguma montagem. Mas várias vezes faltava algo e eu parava pelo caminho. Por que eu não comprava as peças necessárias e finalizava a montagem? A desculpa que eu dava é que não queria gastar dinheiro, que não achava o que queria nas lojas ou que tinha esquecido de incluí-las na lista de compras. E quando não concluo o que começo pareço um bicho. Fico P da vida, xingo tudo e todos. Nada está bom.

E por que não resolvia isso? A verdade? Não queria me animar com a Eletrônica e depois voltar à realidade dos fatos: vagas para trabalhar com Eletrônica geralmente são coisas burocráticas, gerenciais, relacionadas a vendas ou manutenção. E eu não quero nada disso. Eu gosto é de projetar, montar e testar os circuitos. As poucas vagas que são para trabalhar projetando em geral pagam pouco (pelo menos as que eu vi).

Sempre que recordo disso bate uma nostalgia muito grande. Enquanto escrevo fico lembrando dos planos, das ambições de menino.

O fato é que a vontade de brincar com a Eletrônica nunca me abandonou e às vezes eu fico tão alucinado, com crise de abstinência, que eu pego as peças que tenho em casa e monto alguma coisa. É incrível como relaxo quando estou montando as minhas traquitanas. Quando termino com o treco funcionando estou calmo, bem humorado. Quase (eu disse quase) tão bom quanto sexo :)

Decidi que voltaria aos braços dela. Comecei a estudar o processo fotográfico para a confecção das placas de circuito impresso, comecei a comprar livros novamente. Estabeleci que manteria a meta de, no mínimo, uma montagem a cada 2 meses. Muito longe da marca do passado, mas hoje tenho mais compromissos e menos tempo livre... O importante é que não vou abandoná-la nunca mais, meu eterno amor.

sábado, agosto 22, 2009

Microcontroladores ARM de graça

Há 3 semanas atrás eu fiquei sabendo, através do blog do Jê, que a NXP estava distribuindo gratuitamente amostras dos microcontroladores LPC1766, LPC2478, LPC3130 e LPC3250.

Eu fui no site da NXP e fiz a solicitação das amostras. Elas chegaram no dia 18/08/2009.

Não vieram os 4, conforme eu havia solicitado. Apenas o LPC1766. De qualquer modo estou muito satisfeito e logo devo começar a usá-lo.

Se tu gostas de eletrônica e tens interesse em microcontroladores, aproveite que até o momento em que escrevia este post a campanha estava no ar:

sábado, janeiro 05, 2008

Mecatrônica Fácil ameaçada por piratas

Ontem, recebi um e-mail da editora Saber Eletrônica. A editora informava que devido aos altos custos de produção de uma revista, dos impostos e à pirataria, eles não estão conseguindo manter a revista Mecatrônica Fácil.

- Pirataria?

Isso mesmo. Pirataria. Estão disponibilizando o conteúdo da revista na internet. Por causa desse tipo de gente (lixo é o termo mais apropriado), os esforços para que tenhamos uma elevação na qualidade técnica dos nossos estudantes e profissionais fica comprometida.
Resultado: a versão impressa da revista será cancelada. A editora vai disponibilizar o conteúdo apenas em mídia digital para os assinantes, via portal web que está em desenvolvimento, como uma tentativa de manter a revista viva.

Eu não sei se isso realmente vai dar resultados. Muita gente não gosta de ler no computador (por exemplo, eu).

Se o número de assinantes aumentasse de modo substancial, acredito que eles manteriam a versão impressa da revista.

Se tu és um aficcionado por Eletrônica e Mecatrônica e ainda não és assinante da Mecatrônica Fácil, entre em contato com a editora e faça a tua assinatura.

sábado, agosto 11, 2007

Projetando um voltímetro com o galvanômetro

No dia-a-dia dos hobbistas, técnicos e engenheiros, a medição das tensões presentes nos mais diversos circuitos é uma necessidade constante.

O equipamento para esta tarefa é o voltímetro, nosso velho conhecido. Até aí, nenhuma novidade. O que muita gente não sabe é como fazer seu próprio voltímetro.

Neste artigo quero mostrar como podemos projetar nosso próprio voltímetro com galvanômetro.

No artigo Galvanômetro - Alguém ainda sabe utilizá-lo? eu disse que a única medida que existe é a de corrente e que as outras são adaptações desta medida, obtidas com a Lei de Ohm.

- Como faremos então para medirmos voltagens com o galvanômetro?

Vou explicar a idéia que solucionará nosso problema. Depois, exemplificarei o que foi dito com alguns cálculos.

Ao fazer circular uma corrente pelo galvanômetro aparecerá uma diferença de potencial entre seus terminais devido a sua resistência interna. Este é um modo de ver.

O outro é o seguinte: Se eu ligar aos terminais do galvanômetro uma fonte de tensão, circulará pelo mesmo uma corrente que causará o deslocamento da sua agulha.

Para um galvanômetro com resistência interna Rg e escala Ig (corrente máxima que pode circular em sua bobina), temos que a tensão máxima que podemos aplicar entre seus terminais é

Equação 1

Eu disse, também naquele post, que o deslocamento angular da agulha do galvanômetro é proporcional à corrente que circula por sua bobina.

A corrente, de acordo com a velha Lei de Ohm, é proporcional a tensão. Logo, posso reescrever a afirmação acima em função da tensão: o deslocamento angular da agulha do galvanômetro é proporcional à tensão aplicada entre seus terminais.

Vou dar um exemplo prático, para clarear as ideias.

Vamos supor que o resistência interna do galvanômetro (Rg) seja de 300 ohms e que sua escala (Ig) é de 1 mA. Isso implica que a tensão máxima que posso aplicar entre seus terminais é Vg = 0,3 V.

Vou aplicar várias fontes de tensão entre os terminais do galvanômetro, uma fonte por vez, e analisar o deslocamento do ponteiro do galvanômetro e a corrente que circula na sua bobina.

Para V = 0 volt, I = 0 A e a agulha estará em repouso.
Para V = 0,15 volts, I = 0,5 mA e a agulha estará no meio do seu curso (escala).
Para V = 0,3 volts, I = 1 mA e a agulha estará totalmente deflexionada.

Podemos repetir este processo várias vezes, com valores menores ou iguais a Vg e notaremos que o deslocamento da agulha será sempre proporcional à tensão aplicada.

Isso significa que podemos usar este galvanômetro como um voltímetro para medir tensões entre 0 e 300 mV.

- Muito legal! Mas há um probleminha: a grande maioria das tensões que precisamos medir são muito maiores que 300 mV. Se tentássemos usar o galvanômetro diretamente nestes casos, ele iria queimar!

É verdade. Como podemos resolver isso? Simples. Recorreremos novamente à velha e boa Lei de Ohm.

Para tensões maiores que Vg, a corrente será maior que Ig, o que ocasionará a queima do instrumento. Nosso problema consiste em limitarmos a corrente que circula pela bobina do galvanômetro, de modo que para a máxima tensão que queiramos medir, ela não ultrapasse sua escala.

Conseguiremos limitar a corrente com o uso de um resistor em série com a bobina do galvanômetro. A figura 1 ilustra esta idéia.

Figura 1 - resistor série para limitar a corrente que circula no galvanômetro

O equivalente elétrico da figura 1 é apresentado na figura 2, onde o galvanômetro é substituído por sua resistência interna.

Figura 2

O resistor série (Rs), também chamado de resistor multiplicador, multiplica a capacidade de medição de tensão do galvanômetro e deve ter seu valor convenientemente calculado.

Da análise do circuito da figura 2, podemos escrever a equação 2

Equação 2

onde:
  • V - tensão máxima que se deseja medir.
  • Ig - corrente máxima que pode circular pelo galvanômetro.
  • Rg - resistência interna do galvanômetro
  • Rs - resistor série ou multiplicador que se deseja determinar.
Podemos reescrever a equação 2, conforme mostrado abaixo:

Equação 3 - Determinação do resistor série

Por meio da equação 3, podemos calcular um valor de Rs que nos permita medir qualquer valor de tensão.

Vamos fazer um voltímetro que meça até 10V, para exemplificar o que acabei de explicar. Estou assumindo que a resistência interna e a escala do galvanômetro são 300 ohms e 1 mA, respectivamente.

Substituindo os valores apresentados na equação 3, teremos


Em um post denominado Resitores de Precisão, eu disse que nem sempre faz-se necessário o uso de resistores com tolerâncias extremamente baixas. Neste circuito, ao contrário, é fundamental que os resistores sejam o mais precisos possível, pois os erros de medição dependerão muito da precisão do valor do resistor série.

Aconselho que a tolerância seja no máximo de 5% (o ideal é que se usasse resistores de 1%).

Outro ponto a ser notado é que, para muitas medidas, a resistência interna do galvanômetro (Rg) pode ser desprezada.

Se no exemplo anterior tivéssemos desprezado o valor de Rg, Rs seria de 10K ohms, ao invés de 9700 ohms. Isso nos daria um erro de 3%.

Agora, se fôssemos medir uma tensão máxima de 100V, com o mesmo galvanômetro, o valor de Rs seria de 99700 ohms. Se desprezássemos Rg, teríamos Rs = 100K ohms, o que nos daria um erro, neste caso, de apenas 0,3 %.

Note que quanto maior o valor de Rs, mais desprezível se torna o erro devido a não computarmos o valor de Rg nos cálculos.

Do mesmo modo que fizemos no projeto do Amperímetro com Galvanômetro, vamos montar uma configuração de circuito que nos permita medir diferentes grandezas com o mesmo equipamento.

Em outras palavras, a figura 3 abaixo ilustra o esquema de um voltímetro multi-escalas.

Figura 3 - Voltímetro multi-escalas

Outro modo de montarmos o voltímetro multi-escala apresentado na figura 3 é mostrado na figura 4. O leitor atento notará que eles são eletricamente equivalentes.

Figura 4 - Voltímetro multi-escalas - versão alternativa

Fica como exercício para os leitores a determinação das potências dos resistores utilizados nos circuitos mostrados e o cálculo dos erros nas medições pelo uso dos valores apresentados em relação aos calculados.

Apesar de não ter comentado nada no post Amperímetro com Galvanômetro, tanto naquele projeto quanto neste, os valores que podem ser medidos são contínuos, pois como falei no artigo Galvanômetro - Alguém ainda sabe utilizá-lo?, o galvanômetro é um componente polarizado.

Para a medição de sinais alternados é necessário fazer algumas adaptações nos circuitos apresentados.

Pretendo mostrar como fazer estas adaptações em publicações futuras. Antes, porém, quero escrever alguns artigos que forneçam o embasamento necessário para se entender como tais adaptações funcionam.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Amperímetro com o Galvanômetro

Em um post anterior eu falei sobre o galvanômetro. Mostrei quais seus parâmetros e como determiná-los experimentalmente. Neste, pretendo mostrar como utilizá-lo na construção de um amperímetro.

A princípio, um galvanômetro com fundo de escala de 1 mA não tem como medir correntes maiores, pois se o mesmo for submetido a correntes maiores ele irá queimar. E agora? Como resolvemos este problema?

Simples. Utilizando a Lei de Ohm, podemos ligar um resistor de desvio em paralelo com o galvanômetro. Este resistor, conhecido como shunt (desvio, em português), atuará como um multiplicador da capacidade de corrente a ser medida.

A figura 1 ilustra a configuração do amperímetro com o resistor shunt (Rs).

Figura 1 - Resistor protegendo o galvanômetro

O que queremos? Medir uma corrente I que é N vezes maior do que a corrente máxima que o galvanômetro agüenta. Em termos matemáticos podemos escrever a equação 1.

Equação 1

Se substituirmos a representação do galvanômetro por sua resistência interna, teremos o esquema mostrado na figura 2.


Figura 2 - Circuito equivalente com resistência interna do galvanômetro

A Lei de Kirchoff das Correntes nos diz que a soma de todas as correntes que entram em um nó é igual a soma de todas as correntes que saem deste mesmo nó. Daí podemos escrever a equação 2.


Equação 2

Graficamente, temos o mostrado na figura 3.


Figura 3 - Representação gráfica da equação 2.

Substituindo a equação (1) em (2), temos:


Equação 3


e, conseqüentemente, temos a equação 4.


Equação 4

Também pela análise de circuitos, mais especificamente da Lei de Kirchoff das Tensões, sabemos que a tensão sob o resistor shunt é a mesma tensão a que está submetida a resistência interna do galvanômetro. Podemos escrever a equação 5:


Equação 5

Substituindo a equação (4) em (5), temos que


Equação 6

O que nos dá a equação 7.


Equação 7

Como interpretamos a equação 7?

Assim: Para que o galvanômetro de resistência interna Rg possa ser utilizado para medir uma corrente N vezes maior que sua corrente máxima de deflexão, o resistor shunt deve ter um valor (N-1) vezes menor que Rg.

Vamos utilizar valores para tornar as coisas mais claras. Supondo que a corrente de escala do galvanômetro seja de 1 mA e sua resistência interna seja de 300 ohms.

Para medirmos uma corrente de 100 mA (ou seja, 100 vezes maior que a corrente do galvanômetro, o que significa que N = 100), o valor do resistor de shunt será


Agora determinamos a potência que o
resistor de shunt dissipará:

Para que Rs opere com segurança, devemos utilizar um resistor que tenha potência pelo menos 2,5 vezes maior que a dissipada. Um resistor de 1/8 W atende com folga esta especificação.

Agora temos Rs completamente especificado: 3,03 ohms x 1/8 W.

Usando esta técnica, podemos determinar valores para o resistor shunt que nos permitam medir praticamente qualquer valor de corrente maior que o alcance do galvanômetro.

Com um pequeno arranjo de resistores e uma chave de 1 pólo e N posições, podemos fazer um amperímetro que tenha N escalas de corrente.

A figura 4 ilustra o esquema de um amperímetro com 4 escalas de corrente.


Figura 4 - esquema de amperímetro de 4 escalas

A chave na posição x1 permite medirmos uma corrente máxima igual à escala do galvanômetro.

Vamos assumir que a escala do galvanômetro seja de 1mA. Neste caso, poderemos medir várias faixas de corrente, dependendo da posição da chave:
  • em x1 podemos medir de 0 a 1 mA
  • em x10 podemos medir de 0 a 10 mA
  • em x100 podemos medir de 0 a 100 mA
  • em x1000 podemos medir de 0 a 1000 mA
Fica como exercício para o leitor a determinação dos resistores shunt x10 e x1000 (x100 nós determinamos durante a explicação).

Para uma melhor compreensão do que foi explicado, aconselho o estudo da análise de circuitos em corrente contínua.

Alguns livros podem ser obtidos aqui.